• O ESTIGMA DE JUDAS ISCARIOTES E O SENTIMENTO DE CULPA



    É muito comum na história positivista encontrar em determinado fato um culpado, um bode expiatório. Isso vem de tempos remotos. Um exemplo de um grande bode expiatório é o povo judeu, um povo marcado pelo ódio e insatisfação de outros povos.

    E já que estou cerceando a esfera judaica basta lembrar o complô de que foram vítimas pela Rússia czarista com o lançamento do pernicioso Os Protocolos dos Sábios de Sião, o qual é uma compilação com 24 postulados sobre uma possível conspiração, tratando-se assim sobre a nova ordem mundial com os seguintes pontos:
    1.   Projeto para o domínio mundial
    2.   Advento de um reino maçônico
    3.   Um rei do sangue de Sião... da raiz dinástica de Davi
    4.   O rei dos judeus será o verdadeiro papa
    5.   O governante do mundo será o patriarca de uma igreja internacional
    E pasme, a versão brasileira foi organizada por Gustavo Barroso, um grande escritor e declarado antissemita.

    Não preciso nem lembrar do holocausto não é?
    Para não ser injusto cito a Alemanha nos idos de 1919 com o Tratado de Versalhes, esse tratado foi um acordo entre os países europeus assinado no fim da primeira guerra mundial; neste Tratado, a Alemanha assumiu, ou melhor foi obrigada a assumir a responsabilidade pelo conflito mundial, comprometendo-se a cumprir uma série de exigências políticas, econômicas e militares. Estas exigências foram impostas à Alemanha pelas nações vencedoras da Primeira Guerra, principalmente Inglaterra e França. Em 10 de janeiro de 1920, a recém criada Liga das Nações (futura ONU) ratificou o Tratado de Versalhes.

    Não preciso nem dizer que a Alemanha ficou arrasada.

    Até agora citei dois casos que exemplificam a culpa, o bode expiatório como mencionei, mas não falei sobre o sentimento de culpa que é justamente o título desse pequeno texto.

    Vou citar um exemplo que fica perfeito para falar sobre “a culpa” e sobre “sentimento de culpa”, pois vai servir de base para o desenrolar do texto. Esse caso é de conhecimento de todos, e muitas vezes quando se fala nele há certa ojeriza com esse personagem e que a meu ver ele também é vítima, vocês vão entender o porquê.

    O personagem é Judas Iscariotes, e na minha humilde opinião, ele é o maior bode expiatório da história. Ele é considerado o responsável por ser o delator do o maior ser humano que já passou por esse planeta, chamado Jesus Cristo.

    A escolha de Judas não foi por acaso e imediatamente nos perguntamos: o que motivou-o a trair Jesus?

    Cheguei à conclusão que só podem ser três as verdadeiras razões para tal, todas as outras são apenas variantes dessas três.

    Por avareza:
    A maioria dos teólogos acha que foi a cobiça que levou Judas a cometer sua traição, já que isso parece ser o mais óbvio. Para isso baseiam-se em três argumentos, tirados do próprio Evangelho: ele o vendeu por dinheiro (cf. Mt 26,15), a que era excessivamente apegado, como nos mostra o episódio da mulher que unge os pés de Jesus, sob a censura de Judas (cf. Jo 12,4); e o Evangelho acusa-o de ladrão (cf. Jon12,6).

    Quando se fala na venda de trinta moedas de prata, esse valor demonstra que foi um preço muito baixo, já que era o preço fixado pela lei para pagar a indenização pela morte acidental de um escravo (cf. Êx 21,32).
    Então pela vida de um mestre da Lei, um homem ambicioso teria pedido muito mais. Conclusão: Judas fez um negócio pouco vantajoso, que revelava pouca ambição.

    E por fim quando o acusam de ladrão, quando o Evangelho de São João foi escrito, uns 60 anos após a morte de Jesus a tradição que àquela altura já era adversa não teria acrescentado além de traidor o de ladrão? Muitos teólogos pensam assim.

    Por ódio:
    Alguns estudiosos da exegese compartilham da ideia de que Judas era um nacionalista, fanático e violento e que pertencia a um grupo da época chamado de “sicários”, cujo objetivo era expulsar de qualquer forma os romanos da palestina.

    Judas teria visto em Jesus um líder influente e poderoso que poderia encabeçar com sua palavra e poderes milagrosos, uma grande rebelião judaica contra os estrangeiros que subjugavam seu povo. Ao comprovar que Jesus seguia outro caminho, o do amor e o da não-violência sua devoção converteu-se em desilusão e depois em profundo ódio que o levou a buscar a morte daquele que havia esperado tantas coisas que terminara por enganá-lo. Quem sabe Judas acabou odiando Jesus por não ter sido o Cristo que ele e muitos judeus queriam que fosse.

    Sinceramente esse argumento não é convincente.

    Porque a partir da traição no Jardim de Getsêmani, Judas desaparece de cena, em vez de usufruir, como teria sido lógico do espetáculo da paixão?

    Enfim o suicídio, símbolo inequívoco do desespero não concorda muito com a hipótese de seu ódio contra Jesus.

    Por amor:
    Agora a versão mais provável da traição, a versão que eu simpatizo e que sinceramente condiz com os relatos no Evangelho.
    Talvez Judas jamais tenha desejado a morte de Jesus, porque o amava. Quando falei da visão positivista bem no início do texto, era justamente para exemplificar essa situação.

    Algumas pessoas inflamadas por esse pensamento dirão: mas isso é impossível! Judas não amava Jesus!

    Amava sim, na realidade Judas acreditava que aquela situação seria uma via muito fácil para Cristo já que Ele havia se livrado de inúmeras provações dificílimas... Aquela seria apenas mais uma de fácil realização.

    Judas no fundo no fundo acreditava que Jesus pudesse superar aquela situação com um piscar de olhos, mas ele esqueceu que Jesus sempre foi um homem pacífico, de boa índole, avesso a confusões e violência.

    Foi aí que Judas cometeu um grande erro ao entregar aquele grande Homem.

    O suicídio exemplifica o desespero diante do que ele cometeu. Há um filósofo grego chamado Orígenes escreveu uma das mais belas coisas que já se disseram sobre esse apóstolo.
    Ele afirma que quando Judas se deu conta do que acabara de fazer, apressou-se em suicidar-se, esperando encontrar-se com Jesus no mundo dos mortos e ali, com a alma a descoberto, implorar-lhe o perdão.

    O suicídio é prova cabal de sentimento de culpa, isso não tem como duvidar.

    A Igreja nunca ensinou a condenação de Judas e nem poderia fazer isso, pois sua missão é salvar e declarar os que já estão salvos, ou seja, os santos, mas nunca os condenados.

    Escrevi esse texto hoje, dia da independência, não para expressar minhas ironias a respeito deste país (que por sinal são muitas) e muito menos supervalorizá-lo, textos deste tipo têm aos montes na internet, mas com estas palavras mostrar um outro lado da história que muitos não conhecem e além do mais sempre tive vontade de escrever sobre personagens polêmicos e que são malvistos injustamente diga-se de passagem, Judas é um exemplo. 

    Espero com essa iniciativa apresentar as diversas facetas da história.
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