• QUANDO A ESTÉTICA SOBREPÕE A ÉTICA




    Hoje estava aqui nas imediações do meu condomínio e vi uma cena comum que costuma acontecer nas grandes cidades e nas melhores famílias.

    Uma jovem muito bonita, linda mesmo, jogou seu achocolatado no meio da rua, escolheu um canteiro e pôs seu lixo naquele local. Quando vi aquela cena disse a mim mesmo: tenho que escrever sobre isso.

    Não me refiro aqui somente sobre a falta de educação daquela jovem e bela criatura, mas também, sobre um mal que paira nos últimos tempos em nossas cabeças.

    Pelo motivo dela ser bela, o fato de ter jogado a bebida no canteiro é atenuada devido a suas características fenotípicas serem bastante aprazíveis vamos por assim dizer.

    Pelo simples motivo dela ser jovem e bonita isso faz com que uma série de outras situações sejam não agravadas mas como mencionei: atenuadas.

    Hoje grande parte das pessoas estão se cuidando mais, cuidando dos seus corpos com mais afinco mas em compensação meus caros amigos a composição genotípica tende a dar o ar da (des)graça na maioria dos casos. Nervos raivosos e condutas mal intencionadas.

    Só para vocês terem uma ideia já que estou falando em estética, o número de cirurgias plásticas entre os jovens tem aumentado drasticamente nos últimos anos, e isso é alarmante.

    O número de cirurgias plásticas em adolescentes entre 14 e 18 anos mais do que dobrou em quatro anos – saltou de 37.740 procedimentos em 2008 para 91.100 em 2012 (141% a mais), segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

    No mesmo período, o número total de plásticas em adultos subiu 38,6% (saindo de 591.260 para 819.900 procedimentos) – o que significa que as cirurgias no público jovem cresceram em um ritmo 3,5 vezes maior.

    Além de estar num crescimento acelerado, a participação de jovens no total de cirurgias (911 mil procedimentos), também cresceu: saltou de 6% em 2008 para 10% em 2012.

    O Brasil é o segundo País do mundo em número de cirurgias plásticas – fica atrás apenas dos Estados Unidos. A lipoaspiração é a cirurgia mais feita (foram 211 mil procedimentos só em 2011), seguida do implante de silicone nas mamas.

    A regra vale tanto para adultos quanto para adolescentes. Nos meninos, os procedimentos mais procurados são a ginecomastia (redução das mamas que crescem demais) e a cirurgia para corrigir a orelha de abano.

    Pessoal, pelo amor de Deus, tem jovem que prefere uma cirurgia ao invés de uma festa de 15 anos. E é aí que mora todo o perigo. Tendemos a valorizar o belo, o que nos agrada aos olhos.

    Não devemos nos esquecer que é com o belo que as maiores farsas são descobertas, onde ocorre o pulo do gato, e onde as maiores vaidades são acentuadas.

    É com o belo que nos envaidecemos. Foi com o belo que foi descoberta a casa da Dinda (Fernando Collor de Melo), a maçã envenenada da branca de neve era espetacular (análise junguiana) e o demônio se faz de belo para levar nossa alma. Nas mais diversas circunstâncias diga-se de passagem.

    O cavalo de tróia era belo e guardava um grande segredo em seu interior. O Titanic era magnífico e naufragou na sua viagem inaugural. Marylin Monroe era lindíssima mas afundou nas drogas. 

    As academias por aí estão lotadas, com corpos definidos e o ego lá em cima. A estética bem trabalhada não é algo ruim, muito pelo contrário, ruim quando sobrepõe a ética.

    A porque eu sou atlético, olhos azuis, corpinho definido... Ou no caso da mulher, tenho coxas grossas, bunda grande, seios fartos posso fazer o que quiser, tripudiar, bailar, saracotear até o corpo balançar em relação aos anseios alheios?

    Confundimos o belo com a estética pura e simples de não levar em consideração toda a história daquela pessoa, o que ela tem verdadeiramente de belo em seu íntimo. Ou de pior.

    Mais uma vez digo que não estou aqui para julgar o ato da jovem que jogou o objeto no chão, pela sua falta de educação, mas sim para relacionar a estética e ética.

    Se ela foi ou não foi mal-educada essa não é a questão. A questão é que somos pobres miseráveis, ainda presos num mundo narcísico, no qual pouco a pouco mergulhamos em nossos reflexos de vaidade, intolerância e impiedade.
      
    *** Os dados estatísticos desse texto sobre cirurgias plásticas foram extraídos do jornal O Estado de São Paulo e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).


    Muita paz!
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